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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

O dia em que Clarice falou comigo,

Aos eternos utopistas.
Eu estava ali perdida entre tantas cores, com certo ar de dúvida nos olhos. Perdida na imensidão de um céu azul.

Estava cega que nem me dei conta de quando Clarice chegou, quando caí em mim ela estava no canto com um cigarro entre os dedos e um sorriso nos lábios. Na verdade, um sorriso no canto da boca, assim, sem mostrar os dentes, tão misterioso quanto a sua presença. Afinal, o que ela poderia estar fazendo ali?

Ela parecia querer dizer algo ou era eu que queria escutar algo vindo dela, mas ela não disse nada. Não observei o bastante, mas ela estava acompanhada com mais duas pessoas que não paravam de falar, não sei sobre o quê falavam meus pensamentos não deixaram que eu prestasse atenção, apenas ouvi o murmúrio.

No primeiro momento recusei-me acreditar que Clarice estava tão perto de mim. Por fim quando aceitei tal fato um misto de sensações me invadiu.

A principio tive medo. Medo? Sim, se eu tinha uma única certeza ao seu respeito era que ela enxergava muito além do que as outras pessoas. Clarice enxergava além da “casca”. Clarice era capaz de ver a alma, isso era o que as más – ou boas, não sei ao certo ainda - línguas diziam.

E se por acaso Clarice me “visse” o que ela poderia pensar? Talvez o que eu sentisse todo esse tempo não fosse muito diferente do que ela sentisse. “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome”, foi o que eu li um dia desses e para mim fazia tanto sentido.

A verdade é que com ou sem a presença dela de certa forma eu me identificava com o que ela escrevia. E se ela conseguia enxergar além e eu apenas tentava, perto dela não passava de um mero aprendiz.

Foi então que o medo morreu e fui tomada pela vontade de conhecê-la. Nesse momento meu pincel estava perdido entre meus dedos, meus olhos perdidos na minha tela e os pensamentos perdidos entre os de Clarice. Por diabos! nem sabia ao menos o que dizer a ela. Talvez pudesse falar sobre alguns livros, sobre como me identificava com Água Viva ou simplesmente falar sobre a vida. Pensei até em fumar um cigarro, mas eu não fumo.

Não sei ao certo quanto tempo fiquei ali pensando, parada no mesmo lugar. Mas quando me virei para ir até Clarice, para minha surpresa ela já estava vindo em minha direção, esperei que ela se aproximasse. Ela me olhava e agora eu sabia que ela diria alguma coisa, tragou mais uma vez o seu cigarro e finalmente disse-me: “Renda-se, como me rendi. Mergulha no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”.

Um comentário:

E. disse...

Aos eternos utopistas...de fato um texto dedicado à nós,que admiramos mais a vista da janela,a sacada dos predios e o nascer do sol.(: